segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Milonga do Fim



Toco com os dedos, em meu violão,
O canto de acordar os pássaros
O pranto de recordar os laços
Que me prendem a esse cantão.
Trago uma milonga matreira
Que me leva  com as ondas
Que me traz sempre de longe
Até as terras praieiras.
O farol ilumina minhas lembranças
Traz de volta a minha dança
De criança
Por estas bandas do Sul.
Não sou mais pequeno
Nem grande me tornei
Sou um menino, como antes
Num corpo vivido, fiquei
Hoje levo meus filhos e netos e sonhos
Levo tudo o que cabe em mim
Para rever esses ares
Para curtir esses mares
No pedacinho deste fim.
Num eterno
recomeço de mim!


Toda Vida



Lá vai o mané
Toda vida
Em busca do mar.
Aqui está o gaúcho
Em sua lida
Ao encontro de ar.
A estrada é longa
Os prédios bem altos
Olha ao lado, e não vê
Gente
Sente
A solidão.
Para e pensa
Onde está sua mente?
Por que volta sempre?
Se sabe bem o que vai
Encontrar
Penar
Suar.
Abaixo dos prédios
Sob os velhos medos
Aí está
A dor do reencontrar.
Mas ainda há cor
No encontro.
Confronto
Entre o ir e o ficar.
Vai Mané
Vai Gaúcho
Se não cabes mais
Nesses muros
Ganha a vida!
Ganha a estrada
Em busca do ouro perdido

Do teu despertar.

Abapuru do Zé

Releitura de um Tarsila do Amaral


Não estou sozinho, não vês?
Estão todos aí comigo
O sol a me aquecer, iluminar
Ferver
A terra a me segurar, firmar
Proteger
O cactus a me espetar, alertar
Instigar
Eu estou eu aí, aí mesmo onde me vês!
Mais andante do que pensante
Mais ilusão que do que razão.
Sentei apenas pra descansar,
Descascar, aparar
O que sempre foi instante
Ofegante dentro de mim.
Não estou sozinho, não vês?
Minha cor está ai
Meu torpor está aí
Meu tudo está aí
Nu, profundo
Uma tela de todo mundo
Num único momento

De bem-estar.

Despetalada Flor


Como flor do deserto
Em meio ao furacão
és tu, nobre poeta,
As pétalas que voam,
Prantos que garoam
Neste tempo de solidão.

Queres cores, pensas dores
Queres retas, sentes curvas
Um caminhar por entre rugas
Um desejar de velhos amores.

Tens desejo de liberdade
E no suor dos pincéis
No balançar das mãos,
Na firmeza dos pés
Vais achando as cores.
Purgando as dores.
colorindo por inteiro
A tela, a velha alma faceira
Que quer aí viver
Reviver

Florescer.

Galpão do Gaúcho



O gaúcho aí está
Em seu lugar de origem...
O galpão é o mesmo
Mas sobre outro chão.
Já não tem a bombacha
Nem prenda não tem mais.
Mas guarda o chimarrão!
Bebida quente para o frio coração.
Traz as velhas lembranças
Da querência
A dormência, a visão
E no galpão se esconde,
Se revela, enovela
Desejos e planos.
Vai chorar as dores
Os amores, os ardores
Do peito, da alma.
Está tudo como antes
O galpão, no meio do seu nada,
É cantinho de solidão
De pranto, de ilusão
Quer ficar ali, o gaúcho
Mas já não pertence ao rincão.
Traz consigo no peito
O cheiro da terra, do mato
Do fogo de chão, da chaleira
Um tempero que lhe pranteia
Um sabor que incendeia
E faz o corpo gemer.
É dor de gaúcho macho
É dor de velho peão
Que costumava deixar pelo tempo
O sabor da desilusão
Hoje, leva consigo
A marcar o coração...
Nesse galpão, à beira-mar
O gaúcho mantem a esperança
De ter sempre consigo
O colorido do antigamente

A velha paixão, o presente.

Farol do Chuí


Lá no alto
À beira das casas
Ilumina o mar bravio
No fim da barra
No fim do Brasil.
Uma tocha de luz
Para guiar os pássaros
Para achar os náufragos
Que perderam o rumo,
Não acharam mais o prumo
Estão na solidão.
Na beira do penhasco
A história fez um trato
E o último sentinela
Mantém a velha chama
Da união entre os gauchos
De todos os lados
De todas as línguas
Das velhas manias.
Em seu concreto
Guarda o novo e o velho
Guarda as lembranças
Da tua criança

Que ainda teima em viver.

Samurai


Pinto rostos para tapar o olhar.
O que importa é olhar com a alma
Não vejo a força na estrada
No pisar, no pular buracos
A força da vida
Está no lutar.
Sou eu mesmo o samurai
De minha existência
A cortar as arestas
A equilibrar as retas
A me curvar para o zen
E as cores do manto, santo
Os tons de meu eu
São parte cor, parte torpor
Parte de mim e do meu amor
Há sabedoria e entrega
Há disciplina e espera
Há o que sinto
E o que me toleras
Um buscar constante
Entre o que sou e o que quero
Ser
Uma constante aula
De força e equilíbrio
Sou samurai de mim mesmo

Do início de mim ao fim do fim.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

HORIZONTE



O que vejo
Está além do monte.
Além dos sonhos
Além do olhar
Sinto com o corpo
Com o coração pulsar
Com os olhos a piscar
Com a boca a gemer.
Paro diante do monte
E vejo o horizonte
De mim
De nós
Ele é verde sim
Como a esperança
Criança ainda a brincar.
Nesse corpo que é meu
Que derrapa e treme
E endurece, enfurece
Há crianças a brincar
A mente é jovem,  colorida
O corpo precisa do azul
As mãos do vermelho.
Levo teu coração por inteiro
Neste meu pedaço de eu.
Ainda sou teu
Te quero, espero
A vista já não alcança
Apenas nas nuvens, a dança
Das árvores no monte
Estou aqui, nesta fonte
Um desejo de ser mais.

Mas nada que penso
E quero
E sinto
Parece me preencher
Mãos na cintura
Coração na boca
O subir ainda é ingrime
Parece eterno...
Só quero
Que outras mãos me peguem
Tragam o alívio,
ainda que  breve.
Que me guiem, levem
Para um amanhecer
Do outro lado do monte
Do outro lado do ser.

MAR BRAVIO



O sol desponta
Ainda que o mar esteja revolto.
Releitura de um Van Gog
E por sobre as ondas
Olho o dia, lembro da noite
Teu laranja maduro
Ainda entorpece meu corpo
Como o vinho curte a alma.
Mas somos dois pedaços de terra
Que se encontram no horizonte
Mas não se beijam, não se tocam.
Falam de longe uma língua sagrada
Mas que está morta.
Há um vão em nós
Não vemos o mar, não vemos o céu.
E tudo passa
Teu laranja vira alga
Meu azul é misto de ceú e mar
Não sufoco, não me afogo
Quero o sol, a luz que brilha
Aquela que um dia
há de reluzir
Novamente em mim